Antes de virar Brasa, acho que preciso falar sobre como surgiu a chama, afinal não existe Brasa antes da chama, certo? Então vamos lá, senta que lá vem história( estou ficando velho com as referências rs):

 

Boa memória, essa é uma característica que carrego comigo desde pequeno. Às vezes de fato, é uma boa, mas às vezes não. Graças a essa habilitada (se é que posso chamar assim), consigo me recordar de muitos momentos em minha vida onde usaram, se referindo a mim, a palavra: Autêntico. Mas afinal o que é ser autêntico? Me interessei a mais ou menos 15 anos pelo significado da palavra  afinal quando a usavam se referindo a mim hora ela parecia elogio, hora parecia ofensa.

 

Então encontrei o significado no dicionário e ele é bem claro: “autêntico= 1. Diz-se do que ou de quem possui ou apresenta uma proveniência, origem, elaboração ou localização e/ou autoria comprovada; 2. Diz-se do que é sancionado ou visto como legítimo ou legal; 3. Que não possui imitação, que é verdadeiro; 4. Que possui aceitação ou validação; que é legal ou válido; 5. Que é honesto ou verdadeiro; natural ou genuíno.”;

 

Logo percebi que quando se referiam a mim era com o significado 3 e 5. Na parte do “não possui imitação”, geralmente como elogio, também me identifiquei na que diz “honesto”, se referia ao meu modo extremamente sincero de avaliar pessoas e situações (alguns chamam de grosseria).

 

Chamar alguém ou algo de autêntico nesses sentidos, é algo realmente complexo se for avaliado de uma forma mais profunda. Você já parou para pensar o quanto é pesado ser autêntico? Visto que de certa forma, somos todos somatórias daquilo que vimos, desde o momento em que nascemos. Se notarmos, até mesmo as nossas expressões faciais ou timbres de voz — que parecem ser tão únicas —, é um compilado de genética e cultura com a qual tivemos contato. Pois bem, eu parei para pensar nessas coisas, talvez eu até tenha parado para pensar nisso cedo demais, mas aposto que não sou o único que parou para fazer isso.

 

Nessa linha de raciocínio eu parei para refletir sobre quando começou a história da Brasa, logo conclui que com esse nome e logotipo, a trajetória começou em meados de 2013,mas se eu afirmasse isso com todas as letras,estaria mentindo. Porque esse foi apenas o momento em que tive a oportunidade de estudar a fundo o design e conseguir transcrever todo um conceito e filosofia que eu carregava na minha vida para uma única proposta (que nesse momento era fazer camisetas). Parece até historinha né? Por mais que eu jure que não, sempre vai ter alguém para duvidar, mas tudo bem eu respeito isso, acredite ou não lá vai:

 

-Atenção, antes de ler e duvidar dos detalhes, eu ressalto que tenho uma memória absurda, me lembro muito de coisas e detalhes então todos os anos e datas foram preenchidos com total certeza-

 

Tudo começou em 1996, eu um menino de quase 6 anos de idade, estava caminhando rumo a pré escola com a minha mãe, estávamos acompanhados por duas outras mães e cada uma delas acompanhada de seus respectivos filhos, um menino e uma menina. Nós como crianças que éramos, fazíamos o que sabíamos fazer, andar na frente. Eis que em certo momento surgiu, entre nós o assunto clássico( pelo menos em minha época): O que você quer ser quando crescer? A pergunta partiu da menina e  já veio acompanhada de sua premeditada resposta, ela disse que queria ser modelo. Já o menino respondeu que queria ser policial ou bombeiro, sonhos comuns para crianças que tem na profissão sua maior esperança.

 

Então era minha vez, eu respondi desenhista, os dois olharam assustados, como se nunca tivessem ouvido essa resposta – talvez ninguém tenha os respondido assim mesmo – e logo me disseram que não era possível, pois desenho se fazia na escola e não dava pra ser isso depois que crescia. Eu teimoso que sempre fui invoquei a presença solene de minha mãe que se encontrava alguns passos atrás de nós junto as outras (crianças quando querem ouvir a verdade que as conforte se dirigem às suas respectivas mães), e me lembro de ter dito: Mãe não é verdade que eu posso ser desenhista? Ao mesmo tempo os dois contaram para suas mães que eu queria ser desenhista e afirmavam que eu não poderia. Minha mãe disse que seria possível, já as deles minimizou os ânimos dos pequenos, dizendo que era algo “diferente” e “legal”, que eu poderia sim, ser um desenhista.

 

Esse é o papel da Brasa até hoje, isso é algo que carrego como construtivo gerar afronta e desconforto.

 

Pois bem, toda essa memória infantil apenas para recordar que talvez esse tenha sido meu primeiro contato com algo parecido com a real “autenticidade”. Eu não fui único, afinal julgo que embora seja uma resposta pouco provável, foi uma resposta legítima e verdadeira, de acordo com o que eu vivia e com o que eu acreditava naquele momento, aquela era a minha verdade e ela simplesmente saiu. Frente a duas respostas tão clássicas e esperadas de crianças com aquela idade, estava a minha resposta que embora tenha sido verdadeira foi dolorida, pois foi possível ver no rosto deles a expressão de riso como quem não acreditava que isso seria possível e muito menos que eu seria capaz.

 

Nesse momento eu entendi também entendi o peso de ser autêntico, pois falar suas verdades, aquilo que você construiu em sua mente de acordo com seu raciocínio, crenças pessoais, estudos e curiosidades sempre vai gerar afronta, dúvida, desconforto e desconforto na maioria. De certa forma acredito que esse é papel da Brasa até hoje, isso é algo que carrego como construtivo gerar afronta e desconforto.

 

O mais legal é que 20 anos depois eu consegui chegar próximo a minha afirmação, fazendo ilustrações e trabalhando com design gráfico. Já os dois seguiram caminhos distintos dos que eles disseram naquele dia, uma cursou  secretariado e o outro foi para a pedagogia.
Olhando assim para trás eu consigo identificar que foi nesse momento que nasceu o conceito Brasa, pois foi ali que em minha mente surgiu algo incandescente que só viria a ser traduzido por completo muitos anos depois. Foi ali onde começou a queimar a brasa que se manteria morna por anos e em um futuro um pouco distante, reapareceria. As vezes mais branda, as vezes mais ardente, mas jamais apagaria.

Daniel Brasa

Designer gráfico, professor e graduando em sociologia.

Sangue de Xavante misturado com bandeirante, filho de paulista

com mineiro, sobrenome português e parentesco no Rio de Janeiro, legitimamente brasileiro.

Maluco por cultura indígena, mitologia, escrita, serigrafia, hardcore, futebol, rap, metal e trabalho artesanal. Apaixonado pela arte, pelo desafio, pesquisa, ironia e sarcasmo.

Bebe água, cerveja, café e de vez em quando até um mé.


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