Atenção: Para entender melhor essa história de camisetas e tudo que vem logo abaixo, leia o primeiro post: O despertar da chama.

 

Seis anos mais tarde eu já estava no segundo ano do ginásio e com a adolescência chegando cada vez mais perto, eu já começava a me cobrar internamente sobre o que eu faria da vida (sim eu era precoce nesse ponto), caso o desenho não desse certo. Então aos 12 anos eu já tentava elaborar algumas alternativas para esse negócio de profissão.

 

Se as camisetas já passavam pela cabeça? Ainda não!

 

Eu pirava nas aulas de história e de educação artística, e aí um belo dia em meio a uma explicação, o professor nos falou sobre as funções de um antropólogo. Imediatamente cismei que se eu soubesse de cultura como os antropólogos e aplicasse isso nas aulas de arte, eu poderia ter uma profissão e ainda continuar desenhando. Fora o fato de eu achar que nenhum dos meus camaradas de escola escolheria esse caminho. Aquilo permaneceu por muito tempo na minha mente, e ajudou aquela brasa a se manter quente.

 

Alguns anos depois, aos 16 eu tive a oportunidade de trabalhar na fundação Cultural da minha cidade natal, São José dos Campos. Lá eu consegui um estágio remunerado como atendente e ainda emendei o trabalho com aulas de desenho aos sábados. Nessa época, eu também tinha o hábito de comprar camisetas em malharia e desenhar nelas com caneta para tecido, ou até spray, já queria vestir meus próprios desenhos — já que não gostava muito daquilo que estava sendo vendido.

 

Os 18 anos chegaram e com eles a decepção de ver que eu não conseguiria cursar uma faculdade ao mesmo tempo que alguns amigos que estudaram comigo. Me servia de consolo ver que os únicos que ingressaram na vida universitária naquela altura do campeonato, foram os que tiveram a oportunidade dos pais pagarem cursinhos ou escolas particulares. Eu como não tive essa oportunidade, fui em busca de um novo emprego para conseguir me manter. Em 2008 fui parar no telemarketing.

 

Nessa época em São José, todos que tivessem a mínima instrução e encaminhassem um currículo eram contratados. A galera que já havia trabalhado lá só falava mal, mas eu do contra que sou, fui lá para poder tirar algo de bom. Minha trajetória foi promissora,  em 20 meses aprendi muito sobre liderança, melhorei minha comunicação verbal, fui funcionário modelo ( de comportamento, beleza não é o forte rs), monitor, supervisor temporário e de quebra conheci aquela que em um futuro não tão distante seria minha esposa.

 

Aos 19 deixei o telemarketing, não conseguia ver mais nada desafiador, enxerguei a monotonia e aquele sistema estava me deixando doente por ter que fazer sempre a mesma coisa. Passei por vários empregos e nunca estive contente, algo queimava dentro de mim e eu não sabia o que. Foi quando decidi trabalhar sozinho, lembrei de tudo que eu havia pensado em ser, de todas as aulas que gostava, do meu descontentamento com as coisas que via e até que enfim, retornei a ideia das camisetas. Mas dessa vez eu queria aprender a estampar e fazer elas para vender.

 

Comecei isso aos 20 e foi aí que  descobri minhas limitações na hora de digitalizar minhas ideias, tentei procurar um curso que me ajudasse. Foi nesse momento que eu me deparei com o design gráfico.

 

Me matriculei na única escola de minha cidade que fornecia um curso livre com esse título, Kinoene Arts ( naquela época Mundo Kinoene, lugar que seria muito importante na história). Para eu concluir o curso eu tinha que fazer uma espécie de “TCC” da escola. Lá eu me senti pronto para nomear aquela chama que me incomodava, e foi ai que aconteceu o batismo oficial da Brasa.

 

Anexei ao conceito toda a ideia de autenticidade que eu tinha, e mentalizei um Brasil Autêntico, Agora era hora de fazer com que pessoas que acreditassem em mim vestissem essa ideia. Era hora de camisetas!

 

Como eu não conseguia fazer nenhum lucro para viver somente das camisetas, tive que arrumar um emprego e trabalhar com a Brasa apenas de noite/madrugada. Trabalhei em algumas comunicações visuais e agências de publicidade, mas esses lugares tentavam apagar minha brasa, eu já estava esgotado de manter as duas coisas ao mesmo tempo e não sabia ao certo qual seria meu próximo passo.

 

Foi então, que todo meu esforço trouxe o primeiro grande resultado. Graças ao desenvolvimento rápido e evolução profissional que eu estava traçando enxergaram em mim o perfil de professor e o mesmo lugar onde eu havia feito meus cursos de desenho e design me fez a proposta de trabalhar por lá. Aceitei o novo desafio de assumir as turmas de design gráfico e passei a replicar o conceito Brasa como educador.

Daniel Brasa

Designer gráfico, professor e graduando em sociologia.

Sangue de Xavante misturado com bandeirante, filho de paulista

com mineiro, sobrenome português e parentesco no Rio de Janeiro, legitimamente brasileiro.

Maluco por cultura indígena, mitologia, escrita, serigrafia, hardcore, futebol, rap, metal e trabalho artesanal. Apaixonado pela arte, pelo desafio, pesquisa, ironia e sarcasmo.

Bebe água, cerveja, café e de vez em quando até um mé.


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